Reverenda Magda Guedes é sagrada bispa coadjutora

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) sagrou no domingo, 17 de outubro, na Diocese Anglicana do Paraná, a reverenda Magda Guedes Pereira como bispa coadjutora.
Magda irá auxiliar o atual bispo diocesano, Naudal Alves Gomes, até dezembro. A partir daí, ela assume oficialmente como bispa diocesana em todo o estado.
O evento, transmitido ao vivo pelas mídias sociais da IEAB, começou com uma leitura sobre a inserção da mulher na Igreja de Cristo desde os primeiros anos da comunidade cristã. Sediado na Catedral Anglicana de São Tiago, em Curitiba, contou com a participação de reverendas, reverendos, bispas, bispos episcopais anglicanos, pastores e pastoras de outras confissões cristãs, incluindo o presidente do CONIC, Inácio Lemke; Marilia Schüller, representando Koinonia; padre Elias Wolff, líder do Grupo de Pesquisa Teologia, Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso (PUCPR); Bianca Daebs, assessora para ecumenismo e diálogo inter-religioso da CESE (e também pastora na IEAB); Milton Sato, da Associação Inter-religiosa de Educação (ASSINTEC), entre outros.

Homilia

A homilia do dia foi feita pela reverenda Anesia Nascimento de Jesus Cook, pároca da Paróquia St. Peter and St. Oswald, da Diocese de Shefield, província de York, Inglaterra.
“Magda, você foi chamada por Deus como você é, com seus dons, qualidades e defeitos, sim, porque todos nós temos defeitos.Os heróis da fé também eram pessoas simples, vulneráveis, como todos nós. Timóteo, por exemplo, tinha suas fraquezas. Mas ele nunca se deixou intimidar. Em Éfeso, confrontou pessoas que ensinavam falsas doutrinas. Assim, devido à sua fidelidade evangélica, conquistou respeito”, afirmou.
Inspiradíssima, Anesia lembrou que o trabalho episcopal é diverso e complexo. “O bispo, a bispa, precisam construir pontes entre a Igreja e o mundo em que habitamos, o que é um desafio”, refletiu. “Bispos e bispas são evangelistas, mas, acima de tudo, discípulos e discípulas de Jesus, e que sempre precisam ter a capacidade de aprender, de desenvolver novos conhecimentos. Por isso, minha irmã, nunca fique tão ocupada ou tão imersa nas ocupações da Igreja que não possa tirar um tempo para a contemplação”, disse.
“É nos lugares mais simples que se encontra o Cristo de maneira extraordinária. Jesus nunca formou comitês, grupos de trabalho ou organizou sínodos. Ele simplesmente encontrava as pessoas e as convidava a segui-Lo como amigos. Relacionamentos estão acima de planejamentos, estruturas e estratégias”, ponderou ela, levando todos à reflexão.
Anésia também lembrou da importância da Igreja abraçar os movimentos sociais, pessoas de outras religiões, propondo uma solidariedade universal com aqueles que sofrem. “Precisamos de uma Igreja com a capacidade e a sabedoria de subverter os padrões de uma sociedade ordenada e controlada por uma elite que limita os direitos da maioria”.
A homilia foi encerrada com uma oração atribuída ao santo Oscar Arnulfo Romero.

Eucaristia e encerramento

Após ser oficialmente sagrada, Magda expressou gratidão pela acolhida, e também presidiu o momento eucarístico. Finda a celebração, os convidados entregaram presentes e deixaram mensagens de congratulação à bispa Magda, que retribuiu agradecendo e relembrando momentos de sua trajetória – desde a descoberta vocacional até os dias atuais.
“Conto com o apoio de todos vocês, pois sozinha eu não vou conseguir”, concluiu. 
Em seguida, o bispo Naudal Alves Gomes, primaz da IEAB, agradeceu o apoio de todos e todas que, de algum modo, estiveram envolvidos na organização da celebração.

UM POUCO DE HISTÓRIA

A busca por equidade de gênero na Igreja

A busca das mulheres por lugar e voz reconhecidos na Igreja tem suas raízes no movimento de mulheres que questionavam os silenciamentos aos quais foram submetidas na história do cristianismo, de modo particular, na história da Igreja. 
Certas de que podiam assumir, de fato e de direito, o ministério para o qual foram chamadas, as mulheres leigas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil deram início a um longo processo de luta pela equidade de gênero, a fim de que tivessem reconhecido seu trabalho pastoral e, consequentemente, o direito de serem ordenadas.  
Não foi um caminho rápido nem fácil. Não é possível desconstruir uma ideia nem mudar comportamento do dia para noite. Foi preciso estudar, dialogar, ocupar espaços estratégicos, convencer a comunidade de que Deus não faz acepção de pessoas e que mulheres e homens refletem igualmente a imagem do Criador. 
Foi preciso trazer a discussão de gênero para dentro das Igrejas e reler os textos bíblicos na perspectiva da teologia feminista, resgatando as vozes silenciadas das mulheres, permitindo que elas ecoassem provocando questionamentos que colocavam em xeque os valores de uma sociedade patriarcal. Tudo isso convidando a comunidade para assumir a dimensão profética do evangelho de Jesus – que coloca todos lado a lado.

Ordenação de mulheres

O movimento das mulheres não conseguiu apagar as fortes marcas que o patriarcado e o machismo deixaram na Igreja e na sociedade. Todavia, conseguiram romper as barreiras do preconceito de gênero que impediam a ordenação de mulheres e, em 1985, Carmem Etel foi a primeira mulher a ser ordenada na IEAB.
Entre a ordenação da primeira presbítera e a sagração da primeira bispa passaram-se mais de três décadas. E o argumento para um tempo tão amplo era tão patriarcal quanto os que foram utilizados para retardarem a ordenação de mulheres: “As mulheres ainda não estavam prontas para ocupar um cargo tão relevante na hierarquia da Igreja”. 
Sem desistir e acreditando firmemente na possibilidade transformadora dos processos educativos e na fé que nos faz enxergar além, a IEAB, em 2003, elegeu a Sra. Christina Winnischofer, uma mulher leiga, para ocupar pela primeira vez o importante cargo político-eclesiástico de Secretária Geral da Igreja. 
No Sínodo de 2010 a Sra. Selma Rosa, hoje reverenda da Diocese Anglicana do Paraná, foi eleita presidente da Câmara Clerical e Laica da IEAB.

Sagração da primeira bispa

Depois de uma longa caminhada, em 2018, a Diocese Anglicana da Amazônia abriu seu coração e suas portas para eleger a reverenda Marinez Bassotto primeira bispa da IEAB, deixando sua marca profética de modo indelével na história desta Igreja. 
A partir desse feito, o que era uma possibilidade tornou-se fato concreto. Isso permitiu que outra mulher, a reverenda Mariglei Borges Silva Simin, fosse sagrada bispa na Diocese Anglicana de Pelotas, em 2019.

A sagração da bispa da Diocese do Paraná

E eis que no dia 17 de outubro de 2021, numa caminhada que reflete o amadurecimento da Igreja e o empoderamento das mulheres que a compõem, a IEAB sagrou a reverenda Magda Guedes para servir na Diocese do Paraná. Ela é, desde 2018, Secretária Geral da IEAB e, agora, será a terceira bispa da igreja no Brasil. Com a sagração, a Câmara Episcopal passa a contar com um terço de mulheres em sua formação.

Livro

Se você quiser conhecer um pouco mais sobre a história das mulheres ordenadas e das bispas da Igreja episcopal Anglicana do Brasil, convidamos você para acessar e ler o Livro: 35 anos de Ordenação de Mulheres na IEAB – Vivências e Contribuições Pastorais
IEAB com informações do Empodere Sua Irmã
Fotos: Divulgação