Geração Igualdade Contra o Estupro

Geração Igualdade contra o estupro é o tema da campanha do ano da ONU pela eliminação da violência contra a mulher e que a Rede Internacional de Mulheres Anglicanas convida toda a comunhão para participar ativamente.

Os números do Brasil:

180 estupros por dia

53,8% das vítimas são meninas com menos de 13 anos.

A cada 4 horas uma menina com menos de 13 anos é estuprada

50,9% das vítimas são negras

96,3% dos autores do crime de estupro são do sexo masculino

Esses dados são do 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública lançado em setembro de 2019. Considerado um dos crimes com o maior nível de subnotificação no País, pode se pensar que a realidade é de números muito maiores. E cada número tem um rosto, um nome.

Um nome atravessa séculos – Tamar (2 Samuel 13) – moça bonita e virgem, que tinha um meio-irmão – Amnon – que ficou apaixonado por ela. Amnon era filho do rei Davi, assim como Ansalão. Tamar apesar de ser também filha de Davi é apresentada como meia-irmã de Amnon e irmã de Absalão. O texto conta que Amnon ficou doente por causa de Tamar, pois ela era virgem e viu que era impossível fazer alguma coisa com ela. Que paixão é esta que Amnon sente, que ao mesmo tempo demonstra não ter boas intensões. Sim, a estória segue com o amigo muito esperto que dá conselhos a Amnon, que fingiu estar doente e pediu ao pai que mandasse a irmã para preparar e servir a comida para ele. Quando a comida estava pronta, Tamar foi chamada ao quarto e Amnon mandou todos saírem e quando a irmã se aproximou, ele a agarrou. Ela pediu que não a violentasse. Mas Amon não escutou nada do que ela dizia e como era mais forte, ele a dominou com violência e teve relações com ela.

As estatísticas mostram como apontado no início desse texto que a violência, o estupro de mulheres e meninas continua sendo uma realidade cruel. Acrescento aqui mais um número da pesquisa: em 75,9% dos casos os agressores são conhecidos da vítima. Os crimes costumam acontecer dentro de casa com membros da própria família.

A história de Tamar continua com contando que Amnon depois teve nojo dela e a odiou ainda mais do que a tinha amado antes. Então disse: — Saia daqui! Tamar respondeu que mandá-la embora assim era um crime ainda maior do que o que ele acabara de cometer. Mas Amnom novamente não quis escutar o que ela dizia e mandou seu empregado por Tamar para fora e fechar a porta. Ela estava usando um vestido longo, de mangas compridas porque assim se vestiam as filhas do rei. Aí ela pôs cinza ou terra na cabeça, rasgou o vestido e saiu gritando, cobrindo o rosto com as mãos.

Tamar além de sofrer a violência foi também culpabilizada por ela.

Em 2016 foi divulgada uma pesquisa pelo Instituto Datafolha que escutou a opinião de 3.625 pessoas em 217 cidades de todas as regiões do país em que 30% dos entrevistados pensam que “a mulher que usa roupas ‘provocantes’ não pode reclamar se for estuprada”; 37% concordam com a afirmação de que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, e esse percentual aumenta entre os homens para 42%.

A culpabilização da vítima, assim como a objetificação do corpo das mulheres, a linguagem misógina, a naturalização do comportamento sexual violento dos homens são manifestações da “cultura do estupro”. A cultura do estupro faz parte do sistema patriarcal, que mantém a dominação dos homens e a opressão das mulheres, e nesse sentido, as mulheres podem ser exploradas, podem ser tidas como objeto de prazer masculino e por isso, os homens podem fazer cantadas ofensivas na rua; contar piadas sexistas; assediar moral e sexualmente em casa, no local de trabalho, nas igrejas; estuprar e até matar. O prazer masculino não é exatamente sexual, mas o prazer de sentir poder. Na cultura do estupro, as mulheres vivem sob constante ameaça e não é para menos que 85% das mulheres disseram que temem a violência sexual segundo pesquisa do Datafolha (2016).

Já disseram para tomar cuidado com textos antigos, porque se pode pensar que é coisa do passado e a vida não é mais assim, mas os números, as notícias que lemos, as histórias que escutamos de amigas, vizinhas, irmãs são muito presentes.

E de outro lado, pode-se pensar que se sempre foi assim, é normal. Não é normal quando as mulheres sentem dor na carne e na alma, não é normal que mulheres sejam humilhadas. Não é.

Absalão, irmão de Tamar, diz a ela para não contar o que aconteceu, afinal ele é seu meio-irmão. Pede que ela esqueça o que aconteceu. Absalão ainda usou da desculpa da vingança para eliminar seu meio-irmão na disputa pela sucessão ao trono. E o que sucedeu a Tamar? Ela ficou vivendo triste e sozinha na casa de Absalão.

A violência tem efeitos devastadores na vida da vítima. O silêncio e a ocultação, tem efeitos ainda mais nefastos. As vítimas se calam por medo e vergonha. A família e a sociedade também se calam.

Não podemos nos calar, não é admissível que nós que cremos que Deus nos fez a todos a sua imagem aceitemos que alguém seja violentada em seus corpos, em seus direitos.

Nenhuma mulher merece viver triste e sozinha, deprimida e isolada.

Com certeza, cada um de nós conhece uma Tamar. Não vamos fazer de conta que nada aconteceu. Talvez você mesma que está lendo este texto precisa deixar de fazer de conta que nada aconteceu. É enlouquecedor. Juntas podemos transformar a vida.

Aceitemos o convite da Rede Internacional das Mulheres Anglicanas e trabalhemos ativamente, acolhendo vítimas, denunciando agressores, sensibilizando, desconstruindo estereótipos, com discussões dentro de nossas igrejas e comunidades, e em outros espaços para eliminar o estupro e outras formas de violência baseada em gênero e tornar  nossas igrejas e comunidades em espaços seguros.

 

 

Christina Takatsu Winnischofer