“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.” Audre Lorde*

Imagem: Internet

Nesse tempo de advento, de espera e memória da chegada do Libertador do mundo, amigo das mulheres, Jesus, somos desafiadas a olhar os diversos contextos em que atuamos e partilhar essa temática de 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher.

Estávamos chegando em Portugal, com Lucia Dal Pont, coordenadora do CEA e eu, convidadas a partilhar o trabalho do CEA, quando foi nos apresentada a agenda de trabalho e, coincidentemente, o primeiro dia de ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Foram momentos de mística, poesias, partilhas de dores e alegrias que vivem as mulheres em diversos contextos. Oramos por mulheres que conhecíamos vítimas de violência, nos países da Europa, no Brasil, nos países da rede Lusófona.

Partilhamos com um grupo de mulheres portuguesas líderes na Igreja Lusitana, e com irmãs imigrantes Angolanas Anglicanas, para partilhar esse urgente desafio abraçado por todas nós.

Segundo o Instituto Europeu de Igualdade de Género, Portugal é um dos países europeus menos afetados pela violência contra as mulheres, é um dos índices mais baixos da união europeia, em toda a Europa o índice de morte de mulheres é de 50.

A maioria das mulheres que denunciam está na Europa e nos EUA, onde a legislação é mais garantista. E demoraram a fazê-lo. Os especialistas afirmam que somente uma pequena parte das vítimas denuncia.

Em se comparando com o Brasil, o contexto não é tão alarmante em Portugal, as mulheres portuguesas estão atentas aos clamores das mulheres no seu país e nos diversos países vizinhos, são solidárias com suas irmãs. Vivenciam o que nos diz essa frase de uma mulher feminista Audre Lorde: “Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.”

Olhando para nosso país, a violência contra as mulheres é alarmante, registra-se um caso de agressão à mulher a cada 4 minutos.

A sociedade brasileira, cada vez mais entregue à hipocrisia política, é estimulada à violência contra as mulheres. Não encontramos lugares seguros para as mulheres no país. A morte está à espreita dentro das casas, no transporte público, nas ruas e nos espaços de educação e lazer, no trabalho, em diversos lugares. A violência compõe um cotidiano perverso sustentado por relações sociais profundamente machistas.

Machismo são comportamentos, expressados por opiniões e atitudes, de um indivíduo que recusa a igualdade de direitos e deveres entre os gêneros sexuais, favorecendo e enaltecendo o sexo masculino sobre o feminino. O machista é o indivíduo que exerce o machismo.

Em um pensamento machista existe um “sistema hierárquico” de gêneros, onde o masculino está sempre em posição superior ao que é feminino. Ou seja, o machismo é a ideia errônea de que os homens são “superiores” às mulheres.

Infelizmente encontramos o machismo nos grupos de mulheres que não despertaram a consciência que precisamos estar unidas. Precisamos confiar, caminhar juntas nesse momento de escuridão no país. Precisamos estar de mãos dadas, “Ninguém Solta a Mão de Ninguém”.

Partilho com vocês o poema lido, na nossa reunião com senhoras da Igreja Lusitana em Porto, declamado por uma mulher Anglicana de Porto.

Revda. Carmen Etel Alves Gomes

Levantar do Chão – Fina D . Armada

Ela estava ali caída,

Magoada, batida, pisada,

Sentindo humilhação e falta de sorte.

Ele também ali estava

Cansado, esvaziado de raiva,

Não feliz, mais ainda o mais forte…

Ela lembrou-se do que a natureza ensina

Que o forte é forte quando não enfrentado.

Pensou nos seus verdes anos,

Nos sonhos que sempre sonhou

E em seu futuro sem céu estrelado.

E ergueu-se.

E ajeitou o vestido.

E alisou o cabelo, limpou a lágrima.

Esquecendo a dor, a fraqueza, o amor,

Vejo-lhe à ideia o que a mãe lhe dizia:

atirar a cabeça até marcar,

sem medo, sem recuar.

 

E por seus sonhos, pelo futuro, pelo respeito,

Numa luta feroz por ser gente,

Sem ver o quê, sem olhar a nada,

Atirou-lhe à cabeça o que encontrou pela frente.

 

Depois saiu porta fora

Levando o filho pela mão.

E a promessa, a jura, a certeza

Que nunca mais o filho e o mundo

A veriam caída no chão!

 

Fina d’Armada . In : “Mar nosso de cada dia”.

*Audre Lorde, autora caribenha-americana (K. Kendall/Wikimedia Commons)