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Atualizado: 2 horas 29 minutos atrás

Sobre esperar e esperançar – conclusão da Campanha da IEAB dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres

seg, 2018-12-10 12:07

Nestes 16 dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres, estivemos postando textos e relatos produzidos por  mulheres líderes de diversos lugares de nossa IEAB. Foram muito interessantes e desafiadores esses textos, escritos por elas. Chamou-nos atenção também o número de visualizações e partilhas dos textos, assim nosso objetivo foi atingido e nos comprometemos ainda mais a continuar trazendo temas tão importantes como este a reflexão em nossa Igreja.

Hoje postamos o último texto, para esta Campanha, e foi escrito por nossa mais nova Presbítera da IEAB, a Revda Bianca Daébs, clériga da Diocese Anglicana de Recife. Uma mulher ativista na luta por direitos de todas as pessoas e especialmente pela população feminina. Nosso agradecimento a todas, que dispuseram seu tempo a escrever e nos trazer textos comprometidos pela causa, continuamos juntas e “e se ferirem nossa existência, seremos resistência!”.

Secretaria Geral da IEAB

Sobre esperar e esperançar

Por; Bianca Daébs[1]

Estamos vivendo em nossas comunidades o período do Advento, momento em que nos preparamos para celebrar o nascimento de Jesus, mas também, para refletir sobre o seu significado.

O nascimento de uma criança dá ao mundo uma nova chance de recomeçar, por isso, a natividade de Jesus representa a novidade de vida, possibilidade de mudança e a ação que transforma a espera alegre na ação de esperançar.

Esperançar, significa colocar em prática a esperança que o advento nos trouxe para a construção de um mundo melhor, mais justo, acolhedor e afetuoso. Desse modo, colocamos nosso amor em movimento e somos motivadas e motivados a viver em novidade de vida e não nos conformarmos com as estruturas injustas deste mundo, mas transforma-las através da coragem e do amor que nos move.

É por causa do compromisso de vivermos o advento como uma novidade de vida que igrejas da comunhão anglicana em muitos lugares do mundo se engajaram na campanha dos “16 dias de ativismo contra a violência de gênero” que tem como objetivo combater a violência contra as mulheres e meninas.

Nesse período em que o advento acolhe a esperança e as preces dessas mulheres e meninas de não serem mais violentadas por um sistema patriarcal injusto e também por seus companheiros que, de muitos modos, materializam essas violências em seus corpos e almas, podemos nos perguntar: como ensinar o nosso povo a esperançar diante de situações tão dolorosas como essas?

Certamente não existe apenas uma resposta para esta pergunta pois existem pessoas no mundo inteiro se conectando para fazer o bem, todavia, faremos aqui menção a três passos que podem contribuir para ajudar nossas comunidades a esperançar!

Nosso primeiro passo consiste no exercício de nossa espiritualidade, nossas orações e reflexões tem o objetivo de fortalecer nosso espírito, nos trazer sabedoria e discernimento, e transformar nossos medos em coragem!

O segundo passo consiste na partilha dos nossos sonhos de construir um mundo mais justo. É o tempo de dividir com nossas comunidades o desafio do acolhimento, de torná-las locais seguros para o acolhimento de mulheres, meninas e de quem mais precisar e desejar ser amada, respeitada e tratada com dignidade. Isto exige de nós coragem, sabedoria e fé!

Fortalecidas e alimentadas espiritualmente podemos dar o terceiro passo que consiste em nos engajarmos socialmente na construção de um mundo mais equânime. Para tanto, precisamos sair dos espaços privilegiados e seguros de nossas paróquias para ser uma voz Profética em nossa sociedade, ocupar os espaços públicos e colocar o tema da violência praticada contra mulheres e meninas nas pautas das políticas públicas de nossos municípios, estados e país.

Desse modo, seremos agentes da graça do evangelho que cremos, vivemos e pregamos, levando a esperança do advento que nos conduz a construção de um mundo de justiça e paz!

Que a Ruah Divina siga nos protegendo e inspirando todos os dias!


[1] Bianca Daébs é reverenda atuando como ministra auxiliar na Paróquia Anglicana do Bom Pastor, em Salvador – Bahia.

DESCONSTRUINDO O SISTEMA DO PATRIARCADO

dom, 2018-12-09 11:23

Falar dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, é um momento doloroso. Por que doloroso? Porque é fazer memória de tantas violências cometidas contra nós mulheres: nossas mães, avós e muitas gerações antes de nós, que se quer poderiam falar, nem ao menos pensar ou saber, que isso era uma construção social de dominação de gênero.

Mas não basta saber o que é violência de gênero, é necessário conhecer suas várias formas. É necessário perguntar pelas causas. Ivone Gebara faz estas perguntas “Por que nosso corpo de mulher se torna alvo dos desejos violentos, dos desejos de vinganças, de posse, de conquista e de exclusão?”

Particularmente, me é difícil fazer memória, olhar para dentro de mim mesma e perceber que minha educação foi machista, como a de muitas de nós. Fui preparada para servir ao patriarcado. Fui criada para pensar e agir de maneira como a sociedade patriarcal pensa, age e elabora teorias. Venho de família com origem Italiana, segunda geração, essa origem agrava muito a discriminação e preconceito em relação à mulher. Dentro desta cultura preservada nos grupos desta etnia no Brasil, para o homem socialmente construído dentro do sistema patriarcal, toda liberdade de expressão, gestos, comportamentos, trabalho e poder do mando; para as mulheres, repressão, limitação em gestos, comportamento, modo de falar, em fim, obediência total.

Escrevo isso para me expor? Não, claro que não! Escrevo para trazer à memória do quanto precisamos lutar para desconstruirmos em nós mesmas as atitudes machistas, patriarcalistas e sexistas que moram em nós. Muitas de nós ainda não percebemos, ou ainda não temos a consciência, não nos damos conta do quanto nossas ações e teorias estão carregadas de todos estes conceitos e preconceitos, que moram dentro de nosso ser, bem guardadinhos. Em nossas ações, reside ainda muito deste sistema. Precisamos desconstruir teorias milenares que foram introjetadas em nós de geração em geração. Minha mãe é culpada de ter educado suas filhas desta forma? Não, ela foi tão vítima tanto quanto nós somos. Minha mãe não teve nem a oportunidade de passar por essas reflexões de gêneros e construção de gênero! Por quebras de paradigmas de tantas irmãs nossas, à custa de muitos sofrimentos e até doando suas vidas, hoje podemos estar refletindo e desconstruindo conceitos e culturas de dominação.

A ideia de que homens devem controlar a vida das mulheres está muito arraigada em nossa sociedade.

A diferença biológica culturalizada gerou, de certa maneira, também uma diferença social e política, como também formas de dominação e formas de manutenção de uma hierarquia social e sexual masculina. Assim institucionalizada, a diferença obrigou as mulheres a assumir certos encargos e comportamentos, como fazendo parte do seu destino biológico. (Ivone Gebara, 2000, p.124)

Se a normatização das diferenças biológicas foram se construindo e se tornando padrões de comportamento e hierarquia, gerando desigualdades e gerando violências, estas relações podem ser descontruídas, e é necessário que as desconstruamos. Como vamos fazer isso? Construindo novas relações, não na ingenuidade. Será necessário ainda muitas lutas e parcerias, não permitindo que este modelo construído continue. Precisamos ser firmes, primeiro em nossas desconstruções e ações entre nós mulheres, sermos sororais em nossas relações, formar grupos de desconstruções do patriarcado, machismos, sexismos. Não podemos permitir, que por conta da força física, “homens joguem mulheres pela janela em um momento de fúria”. Exemplo de não sermos sorelas, mulheres irmãs, foi esta eleição. O Presidente eleito deu provas de ser um homem machista, sexista… mas muitas mulheres votaram nele, tanto que foi eleito presidente do País. Precisamos trazer, em parceria, homens sensíveis que já fizeram este processo de desconstrução do patriarcado, ou estão em processo, abertos a aprender novas relações; ou homens que foram educados de outra maneira, por mães que já haviam feito a desconstrução do patriarcado e caminhar como pessoas, independente de gêneros, buscando novo modelo de sociedade de iguais.

Revda. Lucia Dal Pont – Diocese Anglicana do Paraná

Em busca de nossos Direitos

sab, 2018-12-08 22:18

Muito se fala sobre direitos e deveres nos dias atuais. Na escola aprendemos os direitos e deveres que devemos ter para uma boa convivência com outras pessoas, mas nem sempre se consegue cumprir os mesmos e daí “não dá nada” como dizem os adolescentes.

No próximo dia 10 de dezembro, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos. Com certeza foi um grande avanço para a proteção à vida humana. No seu primeiro artigo diz o seguinte: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.

Já a Constituição Federal de 1988, nos fala no seu artigo terceiro: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” e no artigo quinto: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Por que trazer para nossa reflexão a Declaração dos Direitos Humanos e a Constituição Federal de 1988? Trazemos na intenção de enfatizar que há muito tempo temos direitos garantidos por lei que não são cumpridos. Ainda existe muita discriminação e preconceito. Ainda existe muita violação pelo direito à vida. Se observarmos os noticiários nos deparamos com muitas formas de violência contra as crianças, mulheres, LGBTIs, idosos e até mesmo homens, mas com mais frequência a violência doméstica, muitas vezes silenciada e não divulgada pela mídia.

Estamos em constante busca pelos nossos Direitos. Como dissemos acima, muitas mulheres perdem a coragem de denunciar a violência a qual estão sofrendo por medo de maiores represálias dos agressores, que em geral são seus companheiros. Falta mais apoio da sociedade para discutir e estar junto às mulheres que sofrem com a violência.

Logo pensamos em violência física, mas quantas mulheres sofrem diariamente violência verbal ou assédio moral e muitas se sujeitam a essa situação porque precisam do trabalho ou são dependentes de seus companheiros. A lei é clara quando diz que toda pessoa é igual e possui os mesmos direitos, mas quantas vezes vemos as mulheres sendo menos privilegiadas em relação aos homens tendo que submeter a coisas que não queriam ou deveriam se submeter?

Devemos acreditar que o nosso país ainda pode vencer essa violação aos direitos das mulheres e que as mesmas possam ter coragem para denunciar as opressões que vivem diariamente. Para concluir, o Pastor Henrique Vieira no programa “Amor e Sexo”, da Rede Globo, que falava sobre Felicidade emocionou as pessoas com a “Oração da Felicidade”, a qual está transcrita a seguir:

“Que todas as crenças religiosas sejam respeitadas e até mesmo a não crença religiosa

Que possamos comungar na crença da humanidade e da diversidade, do bem comum

Que seja declarada justa toda forma de amor

Que nenhuma mulher seja alvo do machismo estrutural

Que a juventude negra não seja alvo do extermínio

Que Marias Eduardas não sejam assassinadas dentro da escola

Que Marquinhos da Maré não sejam assassinados indo para a escola

Que Marielles possam chegar em segurança nas suas próprias casas

Que todo agricultor tenha uma terra para plantar

Que todo sem teto tenha uma casa para morar

Que os indígenas sejam respeitados nas suas crenças

Que as fronteiras acabem e as armas caiam no chão

Que a felicidade venha sobre nós, respeitando toda a dor e consolando toda a lágrima

Porque felicidade de verdade só é possível sob a benção da comunhão

Amém

Axé

E o que de mais universal existe

Amor”.

Que possamos pedir a Deus orientação para lutarmos contra todas as formas de violência, em especial nestes 16 dias de ativismo para que todas as mulheres sintam o amor de Deus e tenham coragem de procurar ajuda, mas que também possamos lembrar de todas as pessoas que sofrem com o preconceito e a discriminação para que sejam respeitadas do jeito que são.

Texto: Carmen Andréa Blaas Rodrigues – Diocese Anglicana de Pelotas

11º Relato sobre os 16 dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres

sex, 2018-12-07 10:14

Já ouvi de algumas pessoas, inclusive mulheres, que o movimento feminista não tem razão de ser nos dias de hoje, pois não vivemos mais nas mesmas condições de antigamente. Sim, é verdade que precisamos olhar para trás e aplaudir e celebrar as conquistas, mas é isso mesmo? Nós chegamos ao ponto em que mulheres não são tratadas com menos importância pelo simples fato de serem – pasmem – mulheres?

Os dados aqui trazidos pelas autoras anteriores não apresentam novidade ou surpresa. Os índices de violência contra as mulheres estão em constante divulgação nas mídias sociais e imprensa como demonstrativos de uma sociedade global que, em parte, ainda olha para as mulheres de cima para baixo.

Se é verdade que a violência contra a mulher, aquela infligida como crime de ódio, como forma de exteriorizar um preconceito enraizado, não está tão distante de nós, podendo acontecer dentro de nossas famílias, nas famílias vizinhas, e até mesmo nas nossas comunidades da Igreja, também é verdade que muitos não sabem e/ou não identificam a violência quando esta acontece.

A cultura do “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, traz enraizado um conceito de que, dentro da relação matrimonial o homem é sujeito de direito e a mulher se submete a ele. Portanto, não cabe a nós, terceiros, intrometer-se na relação, pois está o homem em seu direito de fazer o que bem entende. É incrível, mas ainda hoje algumas pessoas acreditam nesse absurdo.

Trazendo o foco da violência contra a mulher para o ambiente familiar, a Lei Maria da Penha, Lei n.º 11.340/2006, um importante passo dado pelo Estado Brasileiro no reconhecimento e proteção das mulheres, traz em seu artigo 1º, no caput, que (a Lei) “cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher(…); e dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar”. Em seu artigo 5º, o legislador traz as condutas configuradas como violência doméstica ou familiar, sendo elas: “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.

A Lei Maria da Penha, a criação das delegacias especializadas em atendimento às mulheres, a criação dos juizados especiais e a criação de abrigos no qual as mulheres podem permanecer com seus filhos e se afastarem da situação de violência, são instrumentos efetivos de proteção às mulheres que fazem parte de um longo percurso a ser percorrido.

No ano de 2015, a Lei n.º 13.104 agregou ao tipo penal do homicídio, Art. 121 do Código Penal Brasileiro, a qualificadora do Feminicídio. Tal qualificadora traz a situação em que a morte de uma mulher se dá em razão da condição do sexo feminino, dito da forma mais simples possível, o assassinato de uma mulher pelo fato dela ser uma mulher. Ainda, dentro do referido artigo, em seu parágrafo 2º, considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: violência doméstica e familiar; menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Estudiosas do feminismo no século XX que se debruçaram sobre o tema da violência contra a mulher, Diana E. H. Russel e Jill Radford usaram o termo Femicide, que aplicamos como Feminicídio, para caracterizar o fim do ciclo da violência contra a mulher com a morte resultante da violência causada contra ela por ser mulher. A ideia do Feminicídio é que ele não é um ato isolado, mas algo que foge ao crime passional, ou que de alguma forma possa ter sido provocado pela vítima, é a forma mais extrema de violência cometida contra a mulher em razão de seu gênero.

Por ter uma característica tão particular, o Feminicídio não é a mesma coisa que o homicídio, e tão pouco fere o Princípio da Igualdade ao destacar um crime cometido contra as mulheres. É o reconhecimento por parte do Estado da existência da prática e necessidade de proteção das mulheres diante desta situação.

O reconhecimento das conquistas já alcançadas é tão importante quanto a consciência das necessidades ainda existentes. Iniciativas como os 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, e outras campanhas semelhantes, devem ser estimuladas e amplamente divulgadas. A nossa participação como Igreja em tais movimentos é fundamental como parte que busca uma sociedade mais justa e segura para todas as pessoas que nela vivem.

Texto: Paula de Mello Alves – Diocese Sul-Ocidental

Mudar o foco, estratégia possível?

qui, 2018-12-06 11:29

Penso ser muito importante a igreja integrar-se à campanha mundial dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulheres. Sem dúvida, a religião é importante instituição de controle social, pois leva e reitera cotidianamente mensagens de paz, amor, cuidado – enfim de comportamentos socialmente aceitos. Porém, desafiada a escrever sobre o assunto, tive muitas dificuldades para decidir no que focar, já que o texto deveria ser curto. Quando tinha decidido sobre o que falar, eis que tive a atenção desviada por manchete da GZH, no lado direito da tela do meu computador: “Morre mulher esfaqueada dentro de ônibus em Porto Alegre”. São 9h28 min do dia 05.12.2018 e a notícia relata mais um crime que veio engrossar as tristes estatísticas sobre a violência contra a mulher no Brasil, onde as pesquisas oficiais apontam que uma a cada três brasileiras com 16 anos ou mais foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, esfaqueada, empurrada ou chutada nos últimos 12 meses. Nosso País, infelizmente, está entre os cincos mais violentos do mundo neste campo de análise e o índice de Feminicídio é alarmante, com muitas mulheres sendo assassinadas a cada hora.

A proposta da Coordenação do SADD prevê que devemos fazer ouvir nossa voz, partilhar nossas dores, frustrações, tristezas e decepções e denunciar as violências que temos sofrido na sociedade ou testemunhamos nas nossas comunidades. Tarefa muito difícil e, de certo ângulo de análise, utópica, pois a violência contra a mulher, regra geral, ocorre no seio da família. O agressor é “pessoa querida”, com quem a mulher mantém vínculo afetivo. Vigora no caso a lei do silêncio. A vergonha se sobrepõe ao grito de socorro. O medo enclausura. Silencia e mata também, aos poucos. Quando disse que a proposta de testemunho, desabafo, relato escrito é utópica, não o faço como crítica, porque sei que a utopia serve muito. Para quê?  Para que não se deixe de caminhar, como ensina o filósofo Eduardo Galeano. A propósito, a canção Utopia, de Zé Vicente, foi a canção-tema de um recente Festival de Música, o 16º Clave de Fé, na minha Paróquia, a Santíssima Trindade, em Pelotas. Nosso Festival é temático. O ano passado falamos de paz. Neste, de esperança. Ainda ouço os acordes e ouço a conclamação; Sim, vamos esperançar! Alegrai-vos, na esperança – Rm 12:12.

Termino, voltando ao início. Mudar o foco, estratégia possível? Não há mais dúvidas, pois as estatísticas comprovam, que a violência contra a mulher faz parte de nosso cotidiano. Porém, os estudos, artigos, reflexões, estratégias de combate, em geral, emanam de grupos femininos. Sou de opinião que se deva mudar o foco. Pensar nos homens, dirigir-se para os homens. Conjugar verbos na voz ativa e não passiva!  Estamos reproduzindo estratégias (válidas, por óbvio, numa fase inicial) de chamar a atenção para as vítimas. Não seria o caso de voltar-se para os grupos dos responsáveis pela violência? Mulheres, não podemos também ser vítimas de nossas próprias estratégias! Qualquer proposta que vise reduzir esse tipo de violência deve incluir homens. Faço parte de uma Associação de Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ). Por meio desta, ouvi falar de uma iniciativa vinda do Tribunal de Justiça de Goiás. Foram criados,  e os resultados são animadores, “Grupos reflexivos voltados a autores de violência doméstica”. Não seria o caso de criarmos, ou indicarmos, grupos reflexivos de homens para estudar o assunto? Repito, precisamos usar a voz ativa! Quem sabe poderia, por eles próprios, ser preparada uma lista de pequenas coisas que os homens podem fazer para diminuir a violência doméstica? E nosso Clero, já pensou como tratar esse assunto no âmbito da Confissão? Qual a recomendação da Câmara Episcopal? Mudar o foco, é uma estratégia possível?

Texto: Ceres da Silva Meireles – Diocese Anglicana de Pelotas

Relato 9 – Campanha dos 16 dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres

qua, 2018-12-05 10:25

Dia 25 de novembro iniciou a campanha mundial dos 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, no Congresso Nacional,  foi marcada com a leitura do novo relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), onde  mostra que todos os dias, 137 mulheres no mundo são mortas pelas pessoas mais próximas: os próprios companheiros e membros da família. Senadores e senadoras falaram sobre o desafio de mudar esse tipo de estatística.

— O que vem nos dar o documento da ONU? A constatação de que a violência contra as mulheres — e destacadamente a violência doméstica contra as mulheres — não é um “mimimi”, mas sim um fenômeno mundial que desperta a atenção do Estado, em todo o mundo, para a elaboração de leis e políticas públicas capazes de dar conta de uma violência evitável, localizada e plenamente combatível — disse a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), procuradora especial da Mulher do Senado.

O relatório Estudo Global de Homicídios: Feminicídio de Mulheres e Meninas foi divulgado no domingo (25), Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher. De acordo com o relatório, o feminicídio, homicídio de mulheres especificamente relacionado ao gênero, continua a ser um grave problema em todo o mundo. Apesar de haver mais homens assassinados, esses homicídios são praticados por desconhecidos, diferentemente do que ocorre com as mulheres.

“Enquanto a ampla maioria das vítimas de homicídio é de homens assassinados por estranhos, as mulheres têm muito mais probabilidade de morrer pelas mãos de conhecidos. Mulheres mortas por parceiros íntimos ou membros da família representam 58% de todas as vítimas de homicídio do sexo feminino registradas globalmente no último ano”, diz o texto.

Números

Esse índice, registrado em 2017, mostra um aumento expressivo com relação a 2012, quando o percentual de mulheres mortas intencionalmente por parceiros ou membros de família foi de 47% do total das mulheres vítimas de homicídio. Apesar de o maior número absoluto (20 mil casos) ter sido registrado na Ásia, o percentual relativo é maior na África, onde, segundo o relatório, as mulheres têm o maior risco de serem mortas por pessoas próximas. Lá o índice é de 3,1 casos a cada 100 mil mulheres. O continente americano ocupa a segunda pior posição no ranking, com índice de 1,6.

O texto aponta que esses casos de homicídio de mulheres dentro da família estão, muitas vezes, ligados ao papel e status da mulher. Os feminicídios cometidos por companheiros, aponta o texto, geralmente não resultam de atos aleatórios ou espontâneos, mas sim de uma escalada de atos anteriores de violência relacionada ao gênero. Entre os motivos, o texto cita ciúme e medo de que a mulher termine a relação.

Apesar dos números negativos, o relatório da Unodc traz relatos de iniciativas adotadas em várias partes do mundo e uma lista de países que implementaram uma legislação específica para definir e criminalizar o feminicídio. O Brasil está na lista, com a Lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 2006) e a Lei do Feminicídio (Lei 13.104, de 2015).

Mobilização

Em todo o mundo, a campanha 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres  iniciada no dia 25 de novembro e vai até 10 de dezembro, quando se comemora o Dia Internacional dos Direitos Humanos. No Brasil, de acordo com a Procuradoria Especial da Mulher do Senado, a campanha ocorre desde 2003 e é chamada 16+5 Dias de Ativismo, pois incorporou o Dia da Consciência Negra.

Para Regina Sousa, o debate não pode incluir somente as mulheres. É preciso conscientizar os homens e incluí-los na mobilização para mudar uma concepção construída ao longo de séculos. A discussão nas escolas, com orientações às crianças, também é essencial na visão da senadora.

Fonte: Agência Senado

DAB: Vídeo sobre a Campanha dos 16 dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres

qua, 2018-12-05 10:14
O Bispo Mauricio Andrade  – DAB, aderiu a Campanha dos 16 dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres!!!
Acesse pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=zG0T8pWrzmI&feature=share Organização: Diocese Anglicana de Brasília


Nossa força, nosso grito

ter, 2018-12-04 12:18

Falar sobre violência contra a mulher nos diferentes contextos da vida cotidiana tem sido cada vez mais importante e cada vez mais difícil nos últimos tempos. A relevância deste tema atinge a todas as pessoas, independente do gênero, mexe com estruturas, toca em feridas e desacomoda quem está acostumado ao sistema patriarcal em que vivemos.

É hora de cessar o silêncio com um grito de “Basta!” para todo e qualquer tipo de agressão, seja ela física, psicológica, simbólica etc. Entretanto, durante o processo de discussão sobre gênero na igreja, foi possível reconhecer alguns obstáculos na busca da construção de um mundo mais igualitário.

Um destes grandes obstáculos foi o não reconhecimento das violências existentes. Grande parte das pessoas não consegue ou não quer identificar os reais problemas que envolvem as questões de gênero. Aqueles que possuem seus direitos respeitados, não admitem, muitas vezes seus privilégios, não conseguem olhar com empatia para as situações do dia-a-dia, acreditando, deste modo, que todas as outras pessoas têm as mesmas oportunidades e condições.

Os estudos sobre gênero perpassam uma reflexão profunda sobre o funcionamento da sociedade, suas classes, etnias, gêneros, contextos históricos e sociais, bem como a compreensão da subjetividade de cada indivíduo.  Ainda assim, nada disso é suficiente quando não se tem o principal mandamento de Cristo respeitado: “ama teu próximo como a ti mesmo”, este é o princípio da empatia e da solidariedade, o amor.

Quando somos capazes de amar as pessoas e refletir de fato sobre suas reais condições de vida e oportunidades, livre de preconceitos e discriminações, podemos ir além em nosso trabalho, fazendo de fato o que aquela pessoa necessita, pensa-se em cada detalhe do que fazer para que estas se sintam melhor. Escrevo isto lembrando-me de um manual simples que dava dicas aos homens sobre como fazer para que as mulheres não se sentissem constrangidas ou com medo no dia-a-dia, coisas como atravessar a rua ao invés de andar alguns passos atrás dela, não interromper sua fala, entre outros pequenos gestos.

A luta contra a violência começa com estes pequenos gestos de amor ao próximo. Colocar-se  disponível a novas posturas é de suma importância para redirecionar esta triste história de uma sociedade machista e patriarcal. O homem que se coloca ao nosso lado nesta luta, estando disposto mudar pequenas posturas e ser conosco denunciador de agressões é muito bem-vindo.

Porém, o grito é nosso! Nós, mulheres fortes e inconformadas, iremos fazer a real diferença. Precisamos nos unir nesta luta e não nos desanimar com estes que não reconhecem seus privilégios. “Não me vejo na palavra Fêmea: alvo de caça, conformada vítima. Prefiro queimar o mapa, traçar de novo a estrada, ver cores nas cinzas e a vida reinventar” (Francisco, El Hombre)

Vamos seguir lutando por um mundo melhor e mais igualitário, em que as diferenças de gênero não sejam usadas como opressão das mulheres, e nenhum tipo de violência seja tolerado.
Texto: Jessica Aline Leal da Rosa – Diocese Anglicana de Pelotas

GT Juventude lança consulta nacional aos jovens da IEAB!!!

seg, 2018-12-03 12:32

O Grupo de Trabalho da Juventude lança consulta nacional aos jovens da IEAB. A consulta tem como objetivo ouvir os jovens de todas as comunidades, de todas as dioceses e do Distrito missionário. A consulta será disponibilizada via link de formulário do Google, com questões referentes a: quais ações, temas e atividades devem ser priorizadas no trabalho com a juventude nacional nos próximos quatro anos. Por isso, contamos com a participação de todas e todos. Todos os jovens anglicanos poderão participar desta consulta, solicitamos ampla participação e Divulgação!  A consulta estará disponível até o dia 31 de dezembro!

ACESSE O FORMULÁRIO DE PESQUISA por meio deste link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSf6aKtouJPPo0szp2xWGN6kDH2HSekuTkleXaLTzxXEDWUI0Q/viewform

Confira mais um relato dos 16 dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres

seg, 2018-12-03 10:39

Nestes 16 dias de ativismo reafirmamos nossa luta ao combate a violência contra mulheres e meninas. Iniciando no dia 25 de novembro e finalizando dia 10 de dezembro, Dia Internacional de Direitos Humanos, período este que temos ainda mais o dever de nos reafirmarmos como feministas e sempre relembrar o significado desta palavra que define o que é, pra quem é e por que, é tão importante para garantirmos nossos direitos adquiridos que nos mantem no foco para conquista de mais direitos. Estamos em um momento crítico onde estão deturpando ainda mais o significado dos movimentos feministas e o que é ainda mais preocupante a desqualificação dos direitos humanos onde se ouve muitas frases que dão a entender que DIREITOS HUMANOS é garantia de direitos para públicos específicos e não para todo ser humano, e que as pessoas estão se deixando levar por falsas informações, sem averiguar a veracidade das mesmas, se enchem de “razão e  direito” de julgar o outro.

Que possamos sempre meditar e fazer as pessoas refletirem da passagem da Parábola “Eu estava com fome, e me deste de comer; eu estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro e me recebeste em casa; estava nu, e me vestistes; doente e cuidastes de mim; na prisão e fostes visitar-me” (Mateus25, 35- 36).

E neste tempo de advento procurar observar os ensinamento de Jesus, que nos diz que todas as pessoas tem direito a dignidade humana e que ele não faz distinção de ninguém, e continuemos a manter viva a memória e luta de cada pessoa que lutou para termos  muitos direitos conquistados, o principal deles Jesus. Que cada mulher/menina tenha seus direitos garantidos em tempos que a dor do outro é classificado como “mi mi mi”.

Que Jesus nos Inspire, fortaleça, nos guie e nos dê sabedoria para fazermos nossa parte como semeadores do verdadeiro evangelho que acolhe, cuida e não exclui ninguém por nenhum motivo. Que possamos ver no rosto do nosso próximo que clama justiça e dignidade o rosto de Jesus, e que o evangelho possa ser levado para fora dos templos, e saíamos da nossa zona de conforto e ir servir a quem tem fome de justiça.

Texto: Revda. Elineide Ferreira Oliveira – Distrito Missionário Anglicano (Ariquemes/RO)

Feminino, sexo frágil?

sab, 2018-12-01 11:33

Há uma ideia disseminada no imaginário popular de que “as mulheres são o sexo frágil”. Isso seria um contraponto à afirmação de que os homens são o sexo forte. Hoje em dia é um pouco complicado afirmar seja uma coisa, seja outra, porque não há mais apenas esta divisão binária das sexualidades. Além disso, todos sabemos que no Brasil a maior parte das famílias é chefiada pelas mulheres, e muitas vezes as mulheres são as únicas adultas integrantes das famílias; porque os homens, aqueles fortes do imaginário popular, abortaram seus filhos. Sim, abortaram, porque o aborto masculino não é crime! Não é sequer condenado socialmente! Assim, mulheres que engravidam de crianças com alguma deficiência, ou em momento não planejado (pelos homens) se veem abandonadas à própria sorte, e tendo que lidar com todas as consequências e dificuldades de criarem sozinhas seus rebentos.

Neste sentido, é difícil continuar afirmando que as mulheres são o sexo frágil! Longe disso! Mas são sim, muito mais vulneráveis do que os homens. Isto porque se denunciam abortos masculinos (praticados por seus companheiros, namorados ou maridos), ninguém as ouve, e ainda as culpam. Se denunciam violência, doméstica ou na rua, igualmente não são ouvidas e ainda são igualmente responsabilizadas, seja pela roupa que estavam vestindo, pelo horário e/ou local que estavam frequentando, seja pela “conduta provocativa”. Se reivindicam iguais direitos, de empregabilidade ou de salários, novamente não são ouvidas, porque afinal de contas certamente não terão a mesma produtividade masculina, já que engravidam ou assumem responsabilidade sobre outras pessoas – crianças sob seus cuidados ou pessoas idosas – e com maior frequência certamente deixarão a desejar no resultado do seu trabalho.

Lutar contra todas essas injustiças, perseguições e formas de violência é a rotina das mulheres. Por isso, de frágil nós não temos nada! Mas continuamos cada vez mais vulneráveis! Perpetuar esta vulnerabilidade é mais uma violência contra as mulheres. Apoiar quem violenta as mulheres, seja por sua visão de mundo, seja por atos concretos de violência, é também agir violentamente contra as mulheres. E a violência contra qualquer ser humano é atitude não cristã! Não há como sustentar ao mesmo tempo afirmar ser seguidor de Jesus Cristo e ser violento contra as mulheres. São posturas antagônicas e incompatíveis. Apoiar quem desqualifica as mulheres é, da mesma forma, incompatível com o cristianismo.

Que estes dias de ativismo em defesa das mulheres, e denúncia das violências contra elas seja uma oportunidade para meditarmos em nossas escolhas pessoais, se estamos também nós agindo com violência contra as mulheres (qualquer que seja o nosso gênero) e/ou apoiando aqueles que assim agem. Vejamos ainda quais oportunidades temos de ampliar as possibilidades de ação e decisão femininas, pois apenas quando houver alguma equivalência entre estas possibilidades é que poderemos vislumbrar o fim da vulnerabilidade das mulheres. Que Deus nos dê fé, coragem e força para a luta!

Texto: Eneá de Stutz e Almeida – Diocese Anglicana de Brasília

ANGLICANOS SEM FRONTEIRAS NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA

sex, 2018-11-30 11:54

Iuri Lima[1]

Indé se pia pura[2]

Ao pensar em Amazônia, muitos brasileiros não imaginam que exista no coração da maior floresta tropical do mundo, na confluência do Rio Negro com o Rio Solimões, uma grande metrópole que figura como a maior e mais populosa do norte, sendo a sétima cidade mais populosa do Brasil, e contando com o sétimo maior Produto Interno Bruto nacional por conta de sua Zona Franca que concentra um grande parque industrial. Manaus é uma cidade com grande riqueza concentrada nas mãos do empresariado nacional e estrangeiro conjugado com um cenário de grande desigualdade social que não favorece os nativos da região, condenando de modo veemente a invisibilidade e a indigência sua população indígena e cabocla amazônica. A título de informação, Manaus é a capital com maior diversidade indígena urbana do Brasil, são 34 etnias, vivendo em 51 bairros da cidade, que falam 19 línguas, segundo o levantamento feito em 2015 pela Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (COPIME).


É neste chão amazonense sagrado e sofredor que faz parte do território da Diocese Anglicana da Amazônia, que até então concentrava sua presença e ação pastoral no vizinho estado do Pará, que ocorreu a primeira visita pastoral da Bispa Marinez Bassotto junto com o Deão da Catedral Santa Maria, Reverendo Cláudio Miranda, nos dias 23 e 24 de novembro, na cidade de Manaus, com o intuito de animar e reativar a presença missionária anglicana na região e dialogar com a realidade indígena, através de suas organizações sociais. Toda a visita ocorreu num clima de amor serviço que foi ao encontro dos mais vulneráveis. Na manhã do dia 23, a convite do professor Iuri Lima, docente de Ensino Religioso, como parte do projeto de diálogo inter confessional, ocorreu no auditório do Colégio Brasileiro Pedro Silvestre, uma palestra proferida pela Bispa Marinez, a um público de mais de 200 estudantes, onde se refletiu sobre o Ethos Anglicano e a Diversidade Religiosa no contexto Amazônico. Em seguida, foi visitado o primeiro centro de medicina indígena do Brasil, “Bahserikowi’i”, que é organizado por indígenas do Alto Rio Negro; na oportunidade se conheceu o regime de economia solidária que esta instituição desenvolve junto aos povos indígenas da região, de modo especial com as mulheres indígenas do Alto Rio Negro, além de se dialogar com o Kumú (especialista em medicina indígena), Sr. Ovídio Tukano.


No período da tarde deste mesmo dia, a expressão do teólogo espanhol José Antonio Pagola que enunciava que o Deus anunciado por Jesus Cristo é o “Deus dos que não têm nada” ressoou com uma grande concretude nas visitas a periferia manauara nas residências das mulheres indígenas associadas da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN). Acompanhados pelo Prof. Gilson Dias e pelas coordenadoras da AMARN, a Sra. Madalena Tukano e Joana Desano, a Bispa Marinez junto com o Reverendo Cláudio visitaram algumas famílias chefiada por mulheres indígenas, cujo principal fonte de sustento é o artesanato. Foram momentos de escuta afetiva que passavam desde os dramas pessoais até relatos de violência contra mulher. Houve inclusive uma pequena aula de tecer cestaria de palha dada a bispa por uma associada. Mas, também houveram momentos de muita emoção, como numa casa a beira de um esgoto a céu aberto habitada somente por mulheres tukano, em que a dona de casa e artesã Sra. Juscelinda Tukano, relatou os dramas e desafios de chefiar uma família que vivia unicamente pela Providência Divina e por sua luta diária no trabalho com o artesanato.  O dia finalizou com uma cena muito forte e evangélica, a pedido da Sra. Madalena, a comitiva foi visitar seu pai que se encontra muito doente por problemas cardíacos e que recentemente chegou do Alto Rio Negro, ele por muitos anos foi o kumú que cuidava da saúde espiritual de sua comunidade, e recebeu com muito carinho a oração em favor de sua saúde proferida pela Bispa Marinez, um encontro entre dois curadores de vida tal como o ministério de Jesus que tratava a vida como esse “mínimo que é o máximo dom de Deus”, como gostava de proferir Dom Oscar Romero em suas homílias.


A última parte da visita pastoral ocorreu na manhã do dia seguinte na sede administrativa da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro, por sinal esta entidade tem mais de 32 anos de caminhada e foi a primeira do pais a lutar pelos direitos das mulheres indígenas. Foi um momento aberto que contou com a presença das associadas e da comunidade, regado pela língua tukana e pela língua portuguesa, seja nas brincadeiras e cantos entoados pelos curumins (crianças) ou nos momentos de terna escuta respeitosa, que transparecia a missiva evocada na carta pastoral do último Concilio Diocesano em Belém ocorrido em agosto que aconselhava “…acolher a diversidade expressa nos muitos jeitos e muitas faces deste Cristo no qual cremos…”. Num primeiro momento, houve o depoimento de uma das fundadoras da AMARN, Sra. Deolinda Desano, que partilhou um pouco dos anos de luta e defesa das mulheres indígenas sublinhando que a associação é um porto seguro para muitas delas se encontrarem e fortalecerem sua cultura. Sendo seguida pelas falas da coordenação da entidade que pontuou os trabalhos na área da economia solidária através da confecção de artesanato e na educação de crianças indígenas na língua tukana. Somado a isso, por parte dos visitantes, o Reverendo Cláudio Miranda, expos o histórico de tentativas de implantação de uma comunidade anglicana e que isto se liga a uma opção preferencial pelos mais pobres, de modo especial pelos povos originários da Amazônia, enfatizando que “Deus é insistente, e Ele espera uma resposta…”, uma resposta afetiva e efetiva de apoio a resistência dos povos desta região. Por fim, a Bispa Marinez Bassotto, finalizou este momento de diálogo, dando uma acentuação especial na importância de fazer da Igreja ser um lugar em que se viva relações horizontais, recordando as visitas as casas em que as lideranças são das mulheres e sua valiosa contribuição na preservação de sua família e de sua cultura. A Bispa Marinez arrematou que “agora é o Kairós, é o tempo propício de recomeço da Igreja Anglicana aqui… Uma proclamação de inclusão e de respeito…”, se colocando desse modo para somar a outras iniciativas tanto da associação quanto de pessoas que seja de outras igrejas num testemunho cristão de respeito e partilha nessa região.


Por fim, ocorreu um gesto simbólico muito forte e significativo, entoado por um hino cristológico em tukano, são CONSAGRADOS PELO POVO E PARA O POVO! A Bispa Marinez Bassotto e Reverendo Claudio recebem das mãos do povo indígena o sinal da autoridade do serviço: a estola. Uma “nova unção” Diaconal, Presbiteral e Episcopal. A tamanha ternura desse gesto somente enfatiza a vocação missionária e a disposição de colocar no coração da oração de toda a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, esta humilde presença anglicana que ressoa como mensagem que Deus nos ama sem fronteiras e nos envia a sermos testemunhas de que um outro mundo é possível bem no coração da Amazônia.



[1] Cristão Leigo Anglicano e Docente da SEDUC-AM.

[2] Ditado na Lingua Nheengatú da Etnia Desano do Alto Rio Negro cuja tradução significa “Você vem e já estar dentro de meu coração”. Estas palavras foram proferidas como boas vindas a Bispa Marinez Bassotto e ao Reverendo Cláudio Miranda por alunos de escola pública de Manaus.

AS IRMÃS MIRABAL E O DIA DA NÃO VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

sex, 2018-11-30 11:40

As Irmãs Mirabal, filhas de Mercedes Camilo Reyes e Enrique Mirabal, comerciante e proprietário de terras, foram covardemente assassinadas pela ditadura de Rafael Leónidas Trujillo de Molina, o Generalíssimo Presidente que governou com extrema violência a República Dominicana de 1930 a 1961.

Patria Mercedes Mirabal, Bélgica Adela Mirabal, Minerva Argentina Miraba e Antonia María Teresa Mirabal, conhecidas como Irmãs Mirabal, ou ainda, Las Mariposas, nasceram em Ojo de Agua, na província de Salcedo, no norte do país. De uma família importante daquela região, seu pai havia sido prefeito da cidade de Ojo de Agua, no início da ditadura Trujillo.

Minerva foi a primeira irmã a se envolver com o movimento contra Trujillo, sendo influenciada por seu tio e um amigo de colégio, cuja família tinha sido presa e executada por membros do exército de Trujillo.

Depois de terminar o colegial, ela foi para a faculdade de direito e trabalhou com Pericles Franco Ornes, o fundador do Partido Socialista Popular e um adversário de Trujillo. Isso a levou a ser presa e torturada em várias ocasiões.

Minerva foi presa pela primeira vez em 1949, depois que recusou os avanços sexuais de Trujillo e, junto com sua mãe, foi colocado sob prisão domiciliar na capital e torturada pelo regime. Seu pai ficou preso na Fortaleza Ozama, até que sua família usou suas conexões para libertá-los. Eles foram presos novamente dois anos depois, e este regime de terror finalmente causou a deterioração da saúde de seu pai, causando sua morte em 1953.

Minerva foi acompanhada em sua luta contra o governo de Trujillo pelas irmãs Maria Teresa e Patria. Influenciada pelos movimentos de libertação na América Latina, elas criaram com seus maridos o Movimento 14 de Junho. Teve esse nome após o dia em que os dominicanos exilados tentaram derrubar o governo de Trujillo e foram derrotados pelo exército.

Dentro deste movimento, as irmãs foram chamados de “Las Mariposas” (as borboletas), a partir do  nome clandestino de Minerva.

O movimento enfrentou a repressão e a maioria de seus membros foi preso pelo regime de Trujillo, incluindo as irmãs Mirabal e seus maridos, no final da década de 1950. Isso gerou crescente sentimento antigoverno que obrigou Trujillo a libertar as mulheres da prisão de La Cuarenta em fevereiro de 1960.

Seus maridos foram mantidos presos  e as irmãs foram levadas de volta para La Cuarenta em 18 de março e condenadas a 3 anos de prisão. No entanto, as irmãs estavam em liberdade condicional em 18 de agosto de 1960, como resultado da condenação de ações de Trujillo, pela Organização dos Estados Americanos.

Logo depois, em 25 de novembro de 1960, as irmãs foram assassinadas na volta de uma visita a seus maridos na prisão. Vítimas de uma emboscada, foram levadas para um canavial e apunhaladas e estranguladas até a morte, junto com o motorista que conduzia o veículo em que estavam. Trujillo acreditou que havia eliminado um grande problema, mas a morte das irmãs Mirabal causou uma grande comoção no país e levou o povo dominicano a se somar na luta pelos ideais democráticos das Mariposas. O assassinato das irmãs levou a protestos em massa e contribuiu para a queda do regime de Trujill em 1961.

Em 1995, a escritora dominicana Julia Álvarez publicou o livro No Tempo das Borboletas, baseada na vida de Las Mariposas, e que em 2001 se tornou um filme.

A sua história é também recordada no livro A Festa do Bode, do peruano Mario Vargas Llosa.

No Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho de 1981, realizado em Bogotá, Colômbia, a data do assassinato das irmãs Patria Mercedes Mirabal (27 de fevereiro de 1924 — 25 de novembro de 1960), Minerva Argentina Mirabal (12 de março de 1926 — 25 de novembro de 1960) e Antonia María Teresa Mirabal (15 de outubro de 1936 — 25 de novembro de 1960) foi proposta pelas feministas para ser o dia Latino-Americano e Caribenho de luta contra a violência à mulher.

A Fundación Hermanas Mirabal, fundada em 12 de novembro de 1992 com o objetivo de imortalizar Las Mariposas, cria a Casa Museo Hermanas Mirabal em 8 de dezembro de 1994. O Museo Hermanas Mirabal, mantido e gerido pela irmã sobrevivente, Dede, está localizado na cidade de Conuco, Província da República Dominicana Salcedo. Esta é a casa onde as irmãs Mirabal viveram seus últimos 10 meses, e mantém intacta a decoração e pertences das irmãs antes de seu assassinato.

Em 17 de dezembro de 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou que 25 de novembro é o Dia Internacional da não Violência contra a Mulher, em homenagem ao sacrifício de Las Mariposas.

A província onde as irmãs nasceram, Ojo de Agua, foi rebatizada de Hermanas Mirabal em homenagem a essas três mulheres, que dedicaram grande parte de suas vidas, desde muito jovens, a lutar pela liberdade política de seu país.

Texto: Mara L. Baraúna

Foto: Museo Memorial de la Resistencia Dominicana

QUINTA-FEIRA, VISTA PRETO!!!

qui, 2018-11-29 11:13

Em todos os países, a violência baseada no gênero é uma realidade trágica. Essa violência é frequentemente escondida, e as vítimas são muitas vezes silenciadas, temendo o estigma e mais violência. Todos nós temos a responsabilidade de falar contra a violência, para garantir que mulheres e homens, meninos e meninas, estejam protegidos contra estupro e violência em casas, escolas, trabalho, ruas – em todos os lugares em nossas sociedades.

Quintas-feiras em preto: resistência e resiliência

A campanha é simples, mas profunda. Use preto às quintas-feiras. Use um distintivo para declarar que você faz parte do movimento global que resiste a atitudes e práticas que permitem o estupro e a violência. Mostre seu respeito pelas mulheres que são resilientes diante da injustiça e da violência. Incentive os outros a se juntarem a você. Muitas vezes o preto tem sido usado com conotações raciais negativas. Nesta campanha, o preto é usado como uma cor de resistência e resiliência.

O que é a Campanha  quinta-feira  de preto?

As Quintas de Preto surgiram da Década das Igrejas de Solidariedade com as Mulheres (1988-1998) do Conselho Mundial de Igrejas, em que as histórias de estupro como arma de guerra, injustiça de gênero, abuso, violência e muitas tragédias que cresceram onde violência se tornou ainda mais visível. Mas o que também se tornou visível foi a resiliência, e os esforços pessoais das mulheres para resistir a tais violações.

A campanha foi inspirada por:

• As Mães dos Desaparecidos em Buenos Aires, Argentina, que às quintas-feiras protestaram na Plaza de Mayo, contra o desaparecimento de seus filhos durante a violenta ditadura.

• As mulheres de preto em Israel e na Palestina, que até agora protestam contra a guerra e a violência.

• Mulheres em Ruanda e Bósnia que protestavam contra o uso de estupro como arma de guerra durante o genocídio.

• Movimento da Faixa Negra na África do Sul, protestando contra o apartheid e seu uso de violência contra os negros.

Participe desse movimento de pessoas e organizações e façamos  a diferença para indivíduos, comunidades e fóruns políticos nacionais e internacionais.

Texto: CMI

Algumas palavras sobre KOINONIA TRAINING – MIAMI 6 A 10/11

qua, 2018-11-28 12:40

MINISTÉRIO DA IGREJA EPISCOPAL #LATINO KOINONIA

#Como iniciar uma nova comunidade #Reimplantando Igrejas!

O treinamento Koinonia que aconteceu em Miami, sob a coordenação de Anthony Guillen, Ministério Hispânico, foi um espaço de aprendizagem, de partilha de experiências, crescimento na fé e principalmente de  novas perspectivas para desenvolver processos de criar novas comunidades e desafiar para a renovação daquelas que já existem, mas que necessitam de novas estratégias para construir juntos caminhos de compaixão, transformação, serviço, empoderamento e autonomia.

Aprender a aprender foi o FOCO de todos os painéis, trazendo o sentido do que o movimento de Jesus pode fazer na vida das comunidades. Cada um dos participantes de diversos países da América Latina, integrantes da 9ª Província, Episcopal Church e Brasil tiveram a oportunidade de partilhar sua realidade, suas potencialidades e as expectativas para o avanço e crescimento da Missão de Deus.


Participei do PAINEL sobre a Minha experiência pessoal na Missão e a realidade da IEAB nos desafios de implantação de igrejas e as práticas de SERVIÇO e INSERÇÃO PÚBLICA no contexto atual do Brasil.  Como sensibilização em minha fala para o empoderamento de lideranças, desafiei os participantes a construírem com arte, um presente para um dos participantes.  Desafio aceito, e a alegria na interação foi contagiante!


Cada um trouxe para o momento o seu melhor na prática de CONHECER a comunidade, seu entorno, suas dificuldades, seus desejos, e principalmente a humildade de começar ou recomeçar, construindo algo para o aprendizado pessoal, a sobrevivência, a sustentabilidade, a MORDOMIA e RELAÇÕES entre as pessoas, tendo como inspiração o desafio de ser uma igreja Missionária sem ser assistencialista, com projetos de serviço, de cuidado  e compaixão, a LUZ de CRISTO.

#Latinosepiscopales

Texto e Fotos: Carmen Regina Duarte – DAPAR

RELATO 3 – 16 DIAS DE ATIVISMO PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

qua, 2018-11-28 11:14

A Campanha dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres é uma mobilização mundial anual que envolve cerca de 160 países, o Brasil ingressou nesta mobilização em 2003, essa é uma mobilização extremamente importante porque reúne diversos atores sociais e vários segmentos no enfrentamento à violência de gênero. Em outras partes do mundo a Campanha se inicia em 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres, e vai até 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, mas no Brasil, para destacar a dupla discriminação vivida pelas mulheres negras, as atividades iniciam no dia 20 de novembro (Dia Nacional da Consciência Negra).

A violência contra as mulheres é um fenômeno social multifacetado que atinge mulheres das mais variadas classes sociais, de diversas faixas etárias, com diversas escolaridades, em áreas urbanas e rurais, e de todas as tradições religiosas. É considerada violência de gênero aquela que é exercida de um sexo sobre o sexo oposto. Em geral, o conceito refere-se à violência contra a mulher, essa violência é fruto de um comportamento deliberado e consciente, e pode ser física, sexual, psicológica, moral, religiosa, econômica e/ou patrimonial e institucional. A violência de gênero também pode incluir as agressões físicas e psíquicas que uma mulher possa exercer sobre um homem. Mas o fato é que em todo o mundo, a esmagadora maioria das vítimas de violência de gênero são mulheres e crianças, sendo também elas as vítimas das formas mais agressivas de violência.

A violência de gênero ocorre quando o autor desta violência acredita que o seu abuso/agressão é aceitável, justificado ou improvável de ser punido. Esta violência pode dar origem a ciclos de abuso/agressão intergeracionais, criando a imagem nas crianças e demais membros de uma família que o abuso/agressão é aceitável. Neste contexto é provável que poucas pessoas sejam capazes de se reconhecer no papel de abusadoras/agressoras ou vítimas, uma vez que a violência é considerada como algo normal, ou ainda como simples descontrole emocional.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a violência é a maior causa de morte de mulheres entre 16 e 44 anos, outro dado aterrorizante é que a OMS também confirma que pelo uma em cada três mulheres já sofreu violência, e que 70% dessas mulheres sofreram violência dentro de casa, tornando a Violência Gênero uma epidemia mundial. Segundo dados da Fundação Perseu Abramo 4 mulheres são espancadas por minuto no Brasil. E, segundo dados publicados em 2015, treze mulheres são assassinadas por dia em nosso país, fazendo com que o Brasil ocupe a 5ª posição no ranking mundial de assassinatos de mulheres. Essa taxa só é maior em El Salvador, na Colômbia, na Guatemala e na Rússia e o detalhe assustador é que a maioria desses crimes foi cometida por alguém da própria família.

Meu primeiro contato com esse tema veio através do Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD) que no ano de 2013 lançou a cartilha de Prevenção e Enfrentamento à Violência Doméstica contra as Mulheres e que corajosamente conduziu a IEAB numa caminhada de discussão, mas mais do que isso, nos fez abrir os olhos, os ouvidos, e ampliar nossa percepção desta cruel realidade que viola os direitos humanos das mulheres, através de encontros de formação, sensibilização e capacitação em todas as áreas pastorais e dioceses de nossa Província.

Hoje estamos mais qualificadas(os) para esse enfrentamento, mas talvez algumas pessoas entre nós ainda pensem que, porque fazemos parte de uma Igreja, estamos imunes à violência e gênero, afinal entre pessoas cristãs reina a paz e a harmonia. A verdade, no entanto, é que essa realidade idealizada não existe e não estamos imunes. A violência contra as mulheres não é mito, não é exagero, não é “mimimi”. Ela está mais perto do que supomos, pode se infiltrar em nossas estruturas, e certamente pessoas que conhecemos e com as quais convivemos podem estar sofrendo violência neste exato instante, e por isso mesmo ela precisa ser apontada, denunciada, e responsabilizada. É nossa tarefa como Igreja assumir um papel de protagonismo nas ações de enfrentamento à violência de gênero, buscar que políticas públicas de erradicação da violência sejam implementadas, denunciar o patriarcalismo e o machismo na sociedade e na própria Igreja, e abrir espaços seguros de diálogo e acolhida para as mulheres e crianças vítimas deste pecado hediondo, não basta falar é necessário agir, e o engajamento da IEAB nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres é parte importante de nossa ação como anglicanas e anglicanos, na vivência de nossos votos batismais que nos conclamam a “transformar as estruturas injustas da sociedade, desafiando toda a sorte de violência, respeitando a dignidade de toda a pessoa humana”. (LOC pág. 555).

Texto: Bispa Marinez Rosa dos Santos Bassotto – Diocese Anglicana da Amazônia

Líderes anglicanos das Américas se reúnem em Toronto para o encontro regional de Primazes

qua, 2018-11-28 10:55

Os líderes de oito províncias anglicanas cujas igrejas cobrem os territórios de Cabo Horn ao Ártico estão se reunindo em Toronto (Canadá) para um encontro regional de primazes. Sete Primazes e um Bispo representante da Igreja da Província das Índias Ocidentais, onde no momento há uma vacância de primazia, estão reunidos para discutir a Conferência de Lambeth 2020 e outras questões, incluindo os instrumentos de diálogo e das mais diversas realidades regionais da Comunhão Anglicana no Continente Americano.

O encontro reúne o Bispo Primaz Naudal Alves Gomes da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil; O arcebispo Julio Murray Thompson, da Igreja Anglicana da América Central; Primaz Bispo Francisco Moreno da Igreja Anglicana do México; Bispo Greg Venables, presidente da Igreja Anglicana da América do Sul; Bispo Michael Curry, presidente da Igreja Episcopal dos EUA; O arcebispo Tito Zavala, da Igreja Anglicana do Chile; e o anfitrião da reunião, o Arcebispo Fred Hiltz, da Igreja Anglicana do Canadá. O Bispo das Ilhas de Barlavento, Leopold Friday, representou a Igreja da Província das Índias Ocidentais.

Também estão presentes o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, o Secretário Geral da Comunhão Anglicana, Dr. Josiah Idowu-Fearon, e o Chefe Executivo da Conferência de Lambeth, Phil George.

Texto e Foto: ACNS

RELATO 2 – 16 DIAS DE ATIVISMO PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

ter, 2018-11-27 15:55

O interesse inicial pela temática da violência contra mulheres e meninas emergiu a partir de uma prática clínica com adolescentes e famílias na década de 1990, literalmente no século passado. Precisamente em 1999, a convite de uma colega, fui trabalhar numa organização não governamental, em Olinda-PE, que tinha um recorte específico de atendimento sociopedagógico e psicológico a mulheres e meninas em situação de violências.

Quando nos confrontamos com as particularidades da clínica para pessoas em situação de violência de gênero, compreendemos que a universidade não havia incluído em seu currículo as especificidades dessas intervenções. Tal situação nos fez buscar aprimoramento, através de especializações, para fazermos frente a demanda exigida por esses atendimentos. Concomitantemente, recorremos a supervisão dos casos para fortalecer o desempenho do papel profissional.

Os primeiros casos eram de meninas, adolescentes e jovens, que traziam em suas falas as violências sofridas no contexto doméstico e familiar. Em seguida, apareceram alguns casos envolvendo meninos, que geralmente não são tão evidentes quanto as meninas, devido ao próprio contexto cultural. Os meninos atendidos também demonstraram em seus relatos os traços das violências física, psicológica e sexual que marcavam seu cotidiano. As violências que até então conhecíamos apenas por meio de filmes, livros e jornais, agora estavam diante de nossos olhos e ouvidos, tinham cor, endereço, nome e corpo.

Recordamos um caso, muito particular, de uma adolescente, em torno de dezenove anos que trazia o sofrimento marcado no corpo e em sua fala sobre abuso sexual dela e de sua filha de dois anos de idade. Durante o processo psicoterapêutico foi revelado que o pai havia abusado psicológica e sexualmente da filha e da neta. O silêncio estava sendo rompido graças a essa jovem que buscou apoio na organização não governamental e encontrou um espaço de acolhimento.


Outro caso emblemático foi uma história familiar, onde o avô, “patriarca” dessa família, cometeu violência psicológica, física e sexual contra os filhos, filhas, netas e um bisneto. Nesse caso o autor da violência era pastor de uma igreja evangélica da Região Metropolitana de Recife.

Ampliamos a escuta e começamos a ouvir os familiares, as mães principalmente, os pais não apareceram, então, passamos a ouvir as mulheres, que externavam seus sentimentos e suas dores, em função da situação de violência doméstica e da vulnerabilidade social em que viviam.

As falas das adolescentes e das mulheres, que expressavam o desejo de não continuar vivendo essa situação de violência, suscitaram em mim indagações que me fizeram recorrer a literatura relacionada com a violência doméstica e de gênero em busca de respostas. Frente a tais inquietações, procurei, através de minha pesquisa para o mestrado, responder ao questionamento: é possível que essas pessoas rompam com a violência na família?

As mulheres e as meninas sinalizaram em suas experiências que o processo de ruptura das violências inicia a partir da quebra do pacto do silêncio, do refazer dos vínculos de afetos. Consideraram ainda a experiência religiosa e o convívio com os irmãos e irmãs, membros de suas comunidades de fé, um elemento facilitador para o processo de ruptura.

Diante do atual cenário político e social, que se configura como um tempo de resistência, outras perguntas têm surgido no “fazer dessa clínica”, na qual as pessoas são convidadas a protagonizarem suas dores, sofrimentos e exclusões, reescrevendo suas histórias.  Através da fala de Ruben Alves, temos aprendido com essas mulheres, meninas e meninos que “quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente”.

Texto: Ilcélia Soares – Diocese Anglicana do Recife

16 DIAS DE ATIVISMO PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

seg, 2018-11-26 10:02

Ao final deste dia 25 de novembro reservado para lembrar situações tão tristes de violência contra a mulher e escolhido para ser o início de 16 dias de luta pelo fim desta violência, desafiada pela Secretária Geral, convido outras mulheres, uma a cada dia, escrever algo sobre  esta triste situação. Não precisa ser um grande texto, nem um tratado teológico, filosófico ou sociológico. Não temos a pretensão de restringir as publicações somente as doutoras e mestras da Igreja, mas qualquer mulher que queira contribuir com um testemunho, um desabafo, um relato, uma reflexão. Estas  produções serão  diariamente divulgadas no SNIEAB e podem ser partilhados em nossas redes sociais. É uma pequena iniciativa que no próximo ano, preparada com mais tempo, talvez possa se transformar em ações concretas. Mas o essencial e impreterível é que sejam falas de mulheres.


Aceitei o desafio, mas tive muita dificuldade em começar a escrever, não porque não tenha o que dizer, mas pelo temor de me exceder nas palavras. Penso que a maturidade e os absurdos dos tempos que vivemos tem me tornado cada vez mais crítica diante da violência contra mulheres. Estes 16 dias de ativismo ainda conhecido por tão poucas pessoas vem tentar nos tirar da apatia em que fomos colocadas ao longo dos anos. Mulheres da minha geração, com uma outra formação e influência cultural, própria da sociedade machista e patriarcal na qual fomos geradas e criadas temos alguma dificuldade  para perceber o quanto fomos levadas a aceitar certas situações como normais, muitas vezes sem sequer perceber a violência sofrida. Fomos nos acostumando a sermos vistas como menores e mais fracas, incapazes de certos lugares e postos, dependentes, frágeis, e o mais triste que esses conceitos são repetidos por mulheres em relação às mulheres numa falta de reconhecimento mútuo, onde não se percebe que quando diminuímos uma mulher também nos diminuímos um pouco.  A sutileza da violência torna-a aceitável e nos aliena da realidade da sua voracidade e destruição.

Vamos fazer ouvir nossa voz, vamos partilhar nossas dores, frustrações, tristezas e decepções e denunciar as violências que temos sofrido na sociedade ou testemunhamos nas nossas comunidades.

Texto: Revda. Dilce Paiva de Oliveira – Coordenadora do SADD


Dia da Rede Lusófona da Comunhão Anglicana – Festa de Cristo Rei (25/11/2018)

qui, 2018-11-22 10:39

Em novembro do ano passado foi realizado na Cidade do Porto, em Portugal, o III Encontro da Rede Lusófona da Comunhão Anglicana, que possui representações de Angola, Brasil, Moçambique e Portugal, países de mesma língua e que também possuem membresia anglicana e episcopal. Neste último encontro, foi definido que dia 25 de Novembro de 2018 – Festa de Cristo Rei, será celebrado o Dia da Rede Lusófona, primeira oportunidade para que as dioceses desses países possam celebrar em conjunto.


Para isso, a Igreja Lusitana dispõe de um recurso litúrgico para que as comunidades possam orar em rede, nesse mesmo propósito.

Link para download >>> Orações para o Dia da Rede Lusófona da Comunhão Anglicana

Quer saber mais sobre a Rede Lusófona da Comunhão Anglicana? Acesse o site e a página oficial do Facebook !

Foto: RLCA

Texto: SNIEAB